Algumas considerações sobre o mapa natal de Annie Ernaux
Um textinho cheio de astrologia sobre uma das autoras que mais gosto
Já faz um tempo que flerto com o estudo de mapas natais de escritores que gosto. Minha viagem é buscar paralelos entre o autor, sua biografia e sua escrita. Com o tempo percebo que alguns mostram isso de forma muito evidente, outros nem tanto, mas sempre é possível traçar paralelos interessantes.
Estudo o mapa da Annie Ernaux desde que ela foi laureada com o Nobel de Literatura em 2022. A partir deste evento, muita coisa de sua obra foi traduzida para o português e a cada livro esse estudo foi tornando mais coisas evidentes no mapa da autora. Nesta newsletter tomei como fio condutor principal seu texto que foi discurso do premio Nobel, intitulado Vingar minha raça, mas também pesquei muita coisa de outros livros da autora francesa para levantar alguns pontos que se destacam em seu mapa natal.
Uma breve introdução sobre Annie Ernaux, sua obra e seu mapa natal
Nascida em Lillebonne, na Normandia, em 1940, Annie Ernaux trilhou um caminho literário marcado por uma escrita concisa e de caráter objetivo e pela coragem de desnudar a própria história. Laureada com o Prêmio Nobel de Literatura em 2022, a escritora francesa transformou a “autossociobiografia” em um campo de batalha contra o esquecimento e a vergonha de classe, escancarando com precisão pungente temas tabus . Sua trajetória, que transita da docência universitária ao reconhecimento máximo das letras, reflete uma promessa de juventude — a de “vingar sua raça” — que reverbera de forma contundente em sua configuração astrológica.
De acordo com palavras da própria autora, em seu discurso do Nobel, ela pontua que enfrentou o dilema de usar a “língua dominante” (adquirida nos estudos) para descrever seu mundo de origem. Ela percebeu que precisava romper com o “escrever bem” e com as frases bonitas para conseguir expressar a dilaceração social. Por isso, a partir do quarto livro, O Lugar, adotou uma escrita neutra, objetiva e “simples” (sem metáforas ou emoções explícitas), onde a violência emana dos fatos relatados e não do estilo. Sua escrita concisa e limpa é representada por um Mercúrio em Virgem, que rejeita o ornamento em favor da verdade pura e simples.
Ao analisarmos o mapa natal, a concentração de astros na Casa 10 e conjuntos ao ângulo do Meio do Céu, é o que mais imediatamente chama a atenção. O que não apenas justifica sua projeção pública, mas revela como a simplicidade de Mercúrio e a combatividade de Marte se fundiram para criar o que a crítica chama de “escrita como faca”: um instrumento verbal de acuidade clínica capaz de extirpar o supérfluo para alcançar com crueza os fatos.

A Força de Mercúrio: Entre o Sol e a Escrita
Mercúrio, que trata do tema da palavra escrita, tem grande destaque no mapa de Annie, sendo regente da Casa 10, que, entre outros assuntos, fala sobre a profissão e também do ângulo do meio do céu que trata daquilo que legamos ao mundo e temas como poder e prestígio. Mercúrio é também o significador profissional da autora e representa profissões nas quais a mente, o intelecto assim como a palavra são ferramentas essenciais no trabalho. Além de escritora, Annie Ernaux foi por muitos anos professora universitária. O Sol, regente da casa 9 (ambiente universitário e o ensino superior também está na casa 10 (profissão) destacando mais este testemunho sobre a vida profissional da autora.
No signo de Virgem, Mercúrio possui dupla dignidade (domicílio e exaltação), o que, somado ao seu posicionamento na Casa 10, uma casa angular de grande visibilidade, confere força ao planeta para realizar seus assuntos. Embora Mercúrio esteja tecnicamente combusto por sua proximidade de apenas dois graus com o Sol, essa condição não chega a prejudicá-lo no mapa de Annie. Como Mercúrio é um astro que nunca se afasta muito do Sol, sua dupla dignidade em Virgem atua como um “escudo”, mitigando o enfraquecimento da combustão e garantindo que suas promessas intelectuais e profissionais se concretizem.
“Nunca penso em mim mesma como escritora, apenas como alguém que escreve, que precisa escrever. Nesse sentido, não tem por que fazer disso uma coisa grandiosa”.
Nada mal para uma autora que possui um Mercúrio em Virgem como Senhor da Natividade
Mercúrio conjunto a Marte: “Escrevo para vingar minha raça”
Além disso, Mercúrio está conjunto ao pequeno maléfico Marte, astro que trata de assuntos como a vingança, o corte, aquilo que é pungente. Esta conjunção é muito importante e se destaca na escrita de Annie Ernaux. O título do seu discurso da conferência do Nobel é “ vingar minha raça” derivado de um trecho de diário, escrito há sessenta anos, onde a autora afirmava: Vou escrever para vingar minha raça. Esta promessa de juventude sintetiza o trabalho conjunto de Mercúrio e Marte. Outro ponto que chama a atenção é a justificativa da Academia Sueca para o Nobel que destaca “coragem e acuidade clínica” da escrita de Annie, o que reforça mais uma vez o trabalho de Mercúrio e Marte conjuntos no signo de Virgem representando a escrita de Annie Ernaux: um bisturi verbal que corta com precisão e intenção.
Eu precisava romper com o “escrever bem”, a frase bonita — a mesma que eu ensinava para meus alunos —, a fim de extirpar, exibir e entender a dilaceração que me atravessava. Espontaneamente, o que me ocorreu foi o clamor de uma língua que carregava cólera e escárnio, até grosseria, uma língua do excesso, rebelde, frequentemente utilizada pelos humilhados e ofendidos, como a única maneira de responder à memória do desprezo, da vergonha e da vergonha da vergonha (trecho de “Vingar minha raça”).
Aliás, o discurso do Nobel, assim como outros textos e conferências da autora estão reunidos em um livro com o nome de “A escrita como faca”. Mercúrio mais uma vez se manifestando através de um instrumento marcial.
Marte e os temas tabus, centrais na obra de Annie Ernaux
Outro ponto que vale destacar é que Marte, é regente da casa 12, que trata dos esqueletos no armário, do que é indizível e portanto velado, inimigos ocultos, ou seja, tudo aquilo que não queremos (ou não podemos) ver. Na casa 10, esse planeta traz para o “palco da vida” (Casa 10 e Meio o Céu) da autora pela pena de Mercúrio temas como um aborto (O acontecimento), a vergonha de classe (O Lugar), a violência doméstica (A Vergonha), a sexualidade de uma mulher com câncer (O uso da foto), um romance entre uma mulher madura e um jovem 11 anos mais novo (o jovem), entre outros temas tabus. Além disso, Marte é ainda regente da Casa 5, que representa a criação literária relacionando esses temas com a forma que a autora compõe sua arte e seu constrói seu legado literário.
A escrita em primeira pessoa e a autossociobiografia (o eu, o outro e a história)
Júpiter que é o regente do ascendente, ou seja, representa a própria Annie, está na Casa 6 onde recebe um trígono de toda a turma que está na Casa 10. Em sua obra a autora se utiliza de fatos autobiográficos para desenvolver sua escrita onde ela, suas origens (Casa 4, também representados por Júpiter) e seu meio social (Casa 10). Tudo isso se mistura de forma clara, pungente e harmoniosa em sua escrita e nos temas de seus livros. A obra de Annie Ernaux é reconhecida como um gênero denominado autossociobiografia, estilo que funde memórias pessoais com análise sociológica e histórica. Annie parte do particular para alcançar o todo, mostrando que falar a partir de si é também um caminho para falar com o todo, tornando o que é particular, político.
A violência não era mais exibida, ela vinha dos próprios fatos, e não da escrita. Encontrar as palavras que contemplassem tanto a realidade quanto a sensação proporcionada pela realidade se tornaria, como é até hoje, minha preocupação constante ao escrever, qualquer que seja o objeto. Continuar a dizer “eu” era necessário para mim. A primeira pessoa — aquela pela qual nós existimos, na maioria das línguas, desde que aprendemos a falar até a morte. (trecho de “Vingar minha raça”).
Os Luminares na Casa 10: Memória e Desaparecimento
Outro ponto de grande relevância no mapa de Annie Ernaux é a presença dos Luminares (Sol e Lua) na Casa 10 próximos ao Meio do Céu, o que no mapa rata tanto do legado como imagem pública. A frase que abre sua obra mais emblemática, Os Anos — “Todas as imagens vão desaparecer” — encontra um reflexo simbólico na configuração do seu nascimento: a Lua caminha para uma conjunção exata com o Sol. Trata-se de uma Lua Nova, o momento em que a Lua “desaparece” no céu, ficando escura para dar início a um novo ciclo.
Essa dinâmica entre os luminares é central nos temas que estruturam a obra de Annie, onde a fotografia, a memória e as imagens são temas recorrentes que alimentam sua escrita. O protagonismo dos Luminares ganha ainda mais peso pelo trígono com Saturno. Enquanto as luzes (Sol e Lua) trazem a consciência e a imagem, Saturno atua como o elemento de “chumbo” que fixa, limita e estrutura, permitindo que a memória fluida da autora seja transmutada e fixada em um registro histórico e literário permanente.
Finalizo esta newsletter com mais um trecho de “Vingar minha raça” , texto do discurso do Nobel de Annie Ernaux, que chama a atenção para mais um testemunho de seu Mercúrio, combustíssimo, mas absolutamente capaz de um Nobel.
Ao me ser concedida a mais alta distinção literária que existe, um trabalho de escrita e uma pesquisa pessoal, realizados na solidão e na dúvida, são exibidos sob a luz de um holofote. Essa luz não me cega — uma salva palmas para esse Mercúrio combusto! — Não enxergo a atribuição a mim do prêmio Nobel como uma vitória individual. Não é nem altivez nem modéstia pensar que ela é, de certa forma, uma vitória coletiva (trecho de “Vingar minha raça”).
Bibliografia:
ERNAUX, Annie. A escrita como faca e outros textos. Tradução de Mariana Delfini. [S.l.]: Fósforo Editora, 2023.
ERNAUX, Annie. Os anos. Tradução de Marília Garcia. São Paulo: Fósforo, 2021.
O discurso do Nobel “Vingar minha raça” também pode ser encontrado aqui




Que maravilla, me ha encantado leerte (aunque mi lengua natal no es el portugués) es perfectamente comprensible para mí. Tu descripción de la conjunción Marte Mercurio clavadísima, y ese Marte sacando los esqueletos del armario (casa XII) Estoy feliz de haberte encontrado porque también me apasiona la astrología (aunque soy estudiante, empecé tarde) desde hoy no me voy a perder ni uno solo de tus post. Un abrazo grande desde Lima en Perú.
Muchíssimas gracias por tu comentario Rosario! Me alegra que te haya gustado!